Freud explica! A Psicanálise da gestão educacional

Recentemente, li o livro Empresários no divã: como Freud, Jung e Lacan podem ajudar sua empresa a deslanchar. O autor, Luiz Fernando Garcia, escreveu um livro interessante e inusitado, que, aliás, eu recomendo. Tal livro mobilizou-me a produzir um texto sobre os aspectos psicológicos envolvidos na gestão educacional.

Devido à natureza do meu trabalho, percorro boa parte do Brasil conhecendo escolas. Em função da minha formação em Psicologia e Psicopedagogia, tenho um grande interesse por aspectos ligados à psicanálise das organizações.

Em alguns casos, é possível perceber com clareza que certos gestores educacionais, assim como o mitológico Narciso, dedicam grande parte do tempo a contemplar suas imagens refletidas. Tal qual no mito grego, esses gestores correm o risco de definhar e morrer encantados com seus próprios reflexos, sendo incapazes de perceber a beleza de outros projetos e/ou instituições de ensino, com as quais teriam muito a aprender. Narcisistas que são, esses diretores talvez, após a morte, virem flores (flor narciso).

É comum notar que, em dadas instituições de ensino, há uma evidente dificuldade em lidar com conflitos em função de experiências dolorosas vivenciadas no passado; motivo pelo qual algumas pessoas ligadas a essas escolas apresentam-se de maneira ansiosa, em certos momentos estressada e, quase sempre, manifestam medo intenso e excesso de preocupação diante de problemas pequenos ou inexistentes. Tais pessoas e, possivelmente, as instituições em que trabalham, desenvolveram sintomas de transtornos neuróticos.

Também é comum observar escolas nas quais os implicados apresentam pensamentos persecutórios, no tocante a outras escolas com as quais disputam mercado e alunos. Muitas vezes, ouço relatos de que tudo que é feito na escola é imediatamente copiado pelo concorrente, como se um espião estivesse plantado no seu quadro funcional. Da mesma forma, escuto queixas de que alunos e professores são sistematicamente assediados por outras escolas e, não raramente, roubados da instituição. Não que eventualmente isso não possa acontecer, porém acredito que, em alguns casos, esse “sentimento de perseguição”, no qual se acredita que a concorrência está sempre a postos para afanar alunos e professores, trata-se de sintoma paranoico.

Uma das principais características da esquizofrenia é uma partição da personalidade, como se o indivíduo não fosse um todo, mas partes ou pedaços. Assim como algumas escolas que têm segmentos de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) completamente desconectados, sem nenhuma referência de continuidade entre eles. Tais escolas não têm um projeto pedagógico unificado, e, na maioria dos casos, utilizam materiais didáticos que nada têm em comum e que, além de tudo, são referenciados por linhas pedagógicas antagônicas. Seus profissionais não falam a mesma língua, e cada qual “puxa a brasa para a sua sardinha”.

Segundo Freud, para crescer saudável, uma pessoa precisa da representação do paterno e do materno em sua existência. A função materna caracteriza, para o bebê, a possibilidade de amor e proteção constantes. A mãe, ao amamentar, embalar e cantar, deixa impressões eternas dos afetos que são transmitidos nesses momentos. Enquanto isso, na paternagem, dá-se a função de corte da simbiose mãe-bebê, possibilitando a organização dos elementos que vão marcando e formando um novo sujeito. Em escolas, notadamente as que se originaram de salas de Educação Infantil, observa-se claramente a representação materna, e, muitas vezes, apenas essa. Em outras tantas escolas, cuja origem quase sempre é a partir de cursinhos ou Ensino Médio, o referencial é, na maioria das vezes, o paterno, sendo a função materna muito pouco presente. Assim como os bebês, estudantes, professores e funcionários também necessitam das duas representações, e obviamente as escolas que possibilitam uma representação de maneira muito intensa e a outra de modo débil deixam a desejar no tocante ao desenvolvimento dos alunos e de seus colaboradores.

Todas as empresas são formadas por pessoas, e assim como estas, aquelas também adoecem e carecem de tratamento e acompanhamento profissional. Quando emocionalmente abalada e psicologicamente desorganizada, nenhuma pessoa consegue crescer adequadamente. O mesmo acontece com as organizações. Sendo assim, em uma escola, faz-se necessário mais atenção para os aspectos psicológicos da gestão educacional e, se possível, ações de caráter preventivo capazes de promover o crescimento e o desenvolvimento de pessoas e instituições, motivo pelo qual ressalto que, além de grandes professores e grandes gestores, nenhuma escola poderia prescindir de um bom profissional de Psicologia. Freud explica!

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Raison Pinheiro
Psicólogo, Psicopedagogo, Gestor de prospecção do SAS.